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    <title>igor.dalcantara@gmail.com's Podcast</title>
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    <language>en-us</language>
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    <pubDate>Thu, 15 Aug 2019 17:21:39 +0000</pubDate>
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    <itunes:author>Igor Alc&#226;ntara</itunes:author>
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      <title>Hilda Hilst: quatro poemas na voz da autora.</title>
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Do desejo (V)

Se eu disser que vi um p&#225;ssaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se n&#227;o for verdade, em nada mudar&#225; o Universo.
Se eu disser que o desejo &#233; Eternidade
Porque o instante arde intermin&#225;vel
Deverias crer? E se n&#227;o for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos v&#234;m sofomanias, adornos
Impud&#234;ncia, pejo. E agora digo que h&#225; um p&#225;ssaro
Voando sobre o Tejo. Por que n&#227;o posso
Pontilhar de inoc&#234;ncia e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em n&#243;s que se far&#225; disforme?

Da noite (I)

Vi as &#233;guas da noite galopando entre as vinhas
e buscando meus sonhos. Eram soberbas, altas.
Algumas tinham manchas azuladas
E o dorso reluzia igual &#224; noite
E as manh&#227;s morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.

Vi-as sorvendo as uvas que pendiam 
E os bei&#231;os eram negros, e orvalhados.
Un&#237;ssonas, resfolegavam.

Vi as &#233;guas da noite entre os escombros
Da paisagem que fui. Vi sombras, elfos e ciladas.
La&#231;os de pedra e palha entre as alfombras
E vasto, um po&#231;o engolindo meu nome e meu retrato.

Vi-as tumultuadas. Intensas.
E numa delas, insone, a mim me vi.

Do desejo (VIII)

Se te ausentas h&#225; paredes em mim.
Friez de ruas duras
E um desvanecimento tr&#234;mulo de avencas.
Ent&#227;o me amas? te p&#245;es a perguntar.
E eu repito que h&#225; paredes, friez
H&#225; molimentos, e nem por isso h&#225; chama.
DESEJO &#233; um Todo lustroso de car&#237;cias
Uma boca sem forma, um Caracol de Fogo.
DESEJO &#233; uma palavra com a vivez do sangue
E outra com a ferocidade de Um s&#243; Amante.
DESEJO &#233; Outro. Voragem que me habita.

Alco&#243;licas (I)

&#201; crua a vida. Al&#231;a de tripa e metal.
Nela despenco: pedra m&#243;rula ferida.
&#201; crua e dura a vida. Como um naco de v&#237;bora.
Como-a no livor da l&#237;ngua
Tinta, lavo-te os antebra&#231;os, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha pl&#250;mbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, g&#243;ticas, altas de corpo e copos.
A vida &#233; crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser t&#227;o generosa e m&#237;tica: arroio, l&#225;grima
Olho d'&#225;gua, bebida. A vida &#233; l&#237;quida.</description>
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      <pubDate>Fri, 10 Apr 2015 21:16:41 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2015-04-10</dcterms:modified>
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Do desejo (V)

Se eu disser que vi um p&#225;ssaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se n&#227;o for verdade, em nada mudar&#225; o Universo.
Se eu disser que o desejo &#233; Eternidade
Porque o instante arde intermin&#225;vel
Deverias crer? E se n&#227;o for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos v&#234;m sofomanias, adornos
Impud&#234;ncia, pejo. E agora digo que h&#225; um p&#225;ssaro
Voando sobre o Tejo. Por que n&#227;o posso
Pontilhar de inoc&#234;ncia e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em n&#243;s que se far&#225; disforme?

Da noite (I)

Vi as &#233;guas da noite galopando entre as vinhas
e buscando meus sonhos. Eram soberbas, altas.
Algumas tinham manchas azuladas
E o dorso reluzia igual &#224; noite
E as manh&#227;s morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.

Vi-as sorvendo as uvas que pendiam 
E os bei&#231;os eram negros, e orvalhados.
Un&#237;ssonas, resfolegavam.

Vi as &#233;guas da noite entre os escombros
Da paisagem que fui. Vi sombras, elfos e ciladas.
La&#231;os de pedra e palha entre as alfombras
E vasto, um po&#231;o engolindo meu nome e meu retrato.

Vi-as tumultuadas. Intensas.
E numa delas, insone, a mim me vi.

Do desejo (VIII)

Se te ausentas h&#225; paredes em mim.
Friez de ruas duras
E um desvanecimento tr&#234;mulo de avencas.
Ent&#227;o me amas? te p&#245;es a perguntar.
E eu repito que h&#225; paredes, friez
H&#225; molimentos, e nem por isso h&#225; chama.
DESEJO &#233; um Todo lustroso de car&#237;cias
Uma boca sem forma, um Caracol de Fogo.
DESEJO &#233; uma palavra com a vivez do sangue
E outra com a ferocidade de Um s&#243; Amante.
DESEJO &#233; Outro. Voragem que me habita.

Alco&#243;licas (I)

&#201; crua a vida. Al&#231;a de tripa e metal.
Nela despenco: pedra m&#243;rula ferida.
&#201; crua e dura a vida. Como um naco de v&#237;bora.
Como-a no livor da l&#237;ngua
Tinta, lavo-te os antebra&#231;os, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha pl&#250;mbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, g&#243;ticas, altas de corpo e copos.
A vida &#233; crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser t&#227;o generosa e m&#237;tica: arroio, l&#225;grima
Olho d'&#225;gua, bebida. A vida &#233; l&#237;quida.</itunes:summary>
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